Esguio como um cão de corrida. Nada me define mais fisicamente do que dizer que sou alto e magro. Alto para minha geração e talvez para a geração atual.
De pele morena, queimada pelo sol a beira mar e pelo sangue indígena que certamente corre em minhas veias, evidente nos cabelos bem escuros, brilhantes e volumosos a qual sempre tem alguém perguntando se eu passo tinta, não sei se por conta da cor ou por acharem que eu já deveria ter cabelos brancos. Espero que seja pela primeira opção, ainda.
Vivendo na selva de pedra da região metropolitana de São Paulo me sinto bem a vontade, mas sempre que possível fujo para algum lugar junto ao mar ou onde possa curtir a água gelada de uma cachoeira pra recarregar as energias. Sentar sob uma árvore e observar a vida ao redor também tem o mesmo efeito.
Constantemente me vejo como um tartaruga que embora veja seu objetivo distante, não desiste fácil e se protege com o que tem quando surgem dificuldades mas o mais comum é me sentir como um gato curioso, que quer entender tudo e todos ao redor, que presta atenção, que enxerga bem longe e que sente as vibrações do ambiente. É, sou intenso e talvez exagere as vezes.
Próximo do início da vida adulta entrei numa fase de muita vaidade por descobrir que sabia mais que a maioria esmagadora dos meus amigos. Tinha estudado outro idioma, lido muito mais livros que eles e me dava muito melhor nas provas do ensino médio. Acreditava cegamente que o sistema em que vivemos funcionava e que pelo esforço se poderia vencer e ter uma vida digna. Hoje não penso mais assim. Vi que estava enganado e que minha visão de mundo era tão provinciana quanto a cidade de Santos em que nasci e vivia.
Pai aos 20 anos. Novamente aos 21 e outra vez aos 26. Hoje percebo o quanto foi cedo. Um melhor planejamento teria poupado um bocado de dificuldades.
A paternidade precoce me fez decidir adiar os planos de estudar física, sonho que iniciou após me encantar com Carl Sagan apresentando o programa Cosmos. Em vez de prova para entrar em uma univesidade fui prestar concurso público. Consegui sucesso por duas vezes. Uma para a CET em Santos e depois para a já não mais existente Eletropaulo em Praia Grande.
Foi trabalhando pela Eletropaulo que minha visão de mundo mudou completamente. Na turma que fiz parte haviam três pessoas que me abriram o horizonte e pude perceber que eu poderia fazer muito mais do que eu já tinha feito até então. Foi também quando comecei a perceber a desigualdade na sociedade mas isso é assunto pra outro texto.
Minha experiência com computadores começou por volta de 1998. Havia um certo consenso de que o computador seria a nova televisão em termos de aparelho doméstico e resolvi comprar um. O primeiro computador que adquiri foi comprado de segunda mão através do Primeira Mão –; um jornal de anúncios –; e mesmo assim custou todo o dinheiro das minhas primeiras férias na Eletropaulo. Um Itautec com processador Pentium 200 MMX com 64 MB de memória RAM e disco rígido de 3,1 GB. Esse computador me abriu uma porta para muitos conhecimentos sobre o próprio computador, afinal, eu sempre desmontei os aparelhos para ver o que tinha dentro. Poucas semanas depois comecei a usar a Internet na casa dos meus pais, que possuíam o luxo do telefone fixo, e com ela pude aprender muito sobre informática.
Nesse mesmo tempo, incentivado por colegas de trabalho, resolvi fazer curso superior. Prestei vestibular para Tecnólogo em Processamento de Dados para a Fatec Santos que era o único curso superior gratuito no litoral até então e apesar de muitas dificuldades nas primeiras semanas de aula tive contato com o mundo do desenvolvimento de software e vi que tinha talento pra coisa.
Durante os primeiros semestres eu não sabia exatamente o que viria a acontecer na minha vida. Não tinha muitas expectativas sobre empregos, mudança de vida e tudo o mais relacionado. Vivia muito o presente, de pagar as contas e esperar galgar postos onde estava trabalhando.
Foi então que comecei a ver muitos colegas de faculdade entrarem em empresas para fazer estágio e tive um grande choque de realidade ao verificar que eles ganhavam de ajuda de custo praticamente o mesmo que eu ganhava como eletricista na Eletropaulo. Tinha que dar um jeito de me dedicar a isso.
O plano não correu tão bem em termos academicos tanto quanto profissionalmente. Acabei me tornando um programador antes mesmo de me formar. Na verdade eu acabei demorando bastante pra me formar e a transição de eletricista para profissional de tecnologia da informação não foi muito tranquila, mas novamente, é assunto para outro texto.
E lá se foram muitos anos desde meu primeiro emprego como programador. Sem registro algum, praticamente pagando pra trabalhar pois o que ganhava mal pagava o transporte.
Era uma rotina bem dura. Sair as 05:30 para pegar fretado de Praia Grande até São Paulo, metrô da estação Conceição até Parada Inglesa, almoçar marmita ou no lugar mais barato possível, fazer o caminho de volta de metrô, fretado até a faculdade na Ponta da Praia em Santos, pegar o ultimo ônibus para voltar a Praia Grande e quando chegava em casa estudar. Muita das vezes estudava a madrugada toda e praticamente dormia somente nas viagens dos fretados de ida e de volta. Será que tem gente que ainda faz isso hoje em dia?
Felizmente depois de pouco mais de 6 meses consegui um emprego melhor, ainda sem registro. Se antes programava em PHP, Perl, Shell Script em um Conectiva Linux e aprendia SQL no banco de dados MySQL, passei a aprender tambem C++ e mecanismos de criptografia. Na faculdade aprendi muito COBOL e lutei muito pra conseguir trabalhar com essa linguagem por que diziam que era onde o dinheiro estava. Nunca consegui.
Aprendi também Visual Basic mas eu era do time Delphi e em casa consegui criar alguns programas graças ao aprendizado conseguido em livros que me foram presenteados por uma pessoa que foi minha guru e madrinha do meu terceiro filho. Infelizmente uma pessoa que perdi contato já há muito tempo.
Comecei a me aprofundar sobre padrões de projeto após ler o livro Design Patterns: Elements of Reusable Object-Oriented Software do famoso GoF e acredito que tenha sido decisivo na conquista do meu primeiro emprego como programador formal. Programava em PHP e usava banco de dados Oracle. Ali foi verdadeiramente onde o meu caminho profissional realmente sofreu grande transformação. Aprendizado constante, amizades incríveis, remuneração melhorando por mérito e proporcionando uma vida mais digna e estável.
Fui morar próximo a avenida Paulista. Lembro da sensação de sair em um sábado a tarde de casa, subir a 9 de Julho até o MASP, olhar para os dois lados e me emocionar de estar no centro financeiro e político do país. Para quem um dia achou que a vida se limitaria ao litoral de São Paulo era um grande conquista.
Acabei dando a sorte de a empresa que trabalhava em Alphaville (em Barueri) mudar a área de desenvolvimento para São Paulo, na região da avenida Paulista. Já não precisava mais usar transporte publico ou carro para ir ao trabalho e isso foi um ganho de qualidade de vida gigantesco. Fiquei alguns anos por lá.
Com o nascimento da minha caçula em 2010 eu precisava melhorar minha remuneração e conseguir mudar para um imóvel maior do que o quarto e sala em que morava. Continuei atuando com PHP